segunda-feira, agosto 10, 2009

amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
.
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
.
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

(carlos drummond de andrade)

7 comentários:

dida disse...

amar sempre...enquanto dura é infinito!

bjs

wind disse...

Fabulosos poema e foto!
Beijos

mfc disse...

Fiquei a sorrir...

Su disse...

dida; wind; mfc.....

jocas maradas ..............sempre

Dead Porcelain Doll disse...

Já que tudo é amor... mas há coisas mais repletas de amor que outras... e pessoas... é preciso torna-lo o nosso eixo, o amor.

Amar as coisas pérfidas, sim, se for isso que a vida desejar de nós, já que amar coisas belas e perfeitas é um desafio menor... mas só se constitui como desafio se realmente nos acrescentar alguma coisa... se não conseguirmos retirar dali algo de bom... pois é melhor nem tomar grande conhecimento da sua existência...

;) Beijos!

ηatalie αfonseca disse...

Que foto fantástica!!!
:)

Isaura Pereira disse...

Uma conjugação perfeita :-)

Adoro carlos drumond ....

Jocas bigs