domingo, abril 22, 2007

Estou num dia em que me pesa, como uma entrada no cárcere, a monotonia de tudo.

A monotonia de tudo não é, porém, senão a monotonia de mim. (...)
Cada dia é o dia que é, e nunca houve outro igual no mundo.(...)
O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo.
Desejo partir - não para as Índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o lugar qualquer - aldeia ou ermo - que tenha em si o não ser este lugar.
Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias.
Quero repousar. (...) Quero sentir o sono chegar como vida, e não como repouso.
Uma cabana à beira-mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente, só a minha vontade mo não pode dar.
A escravatura é a lei da vida, e não há outra lei, porque esta tem de cumprir-se, sem revolta possível nem refúgio que achar. Uns nascem escravos, outros tornam-se escravos, e a outros a escravidão é dada.
O amor cobarde que todos temos à liberdade - que, se a tivéssemos, estranharíamos, por nova, repudiando-a - é o verdadeiro sinal do peso da nossa escravidão.
Eu mesmo, que acabo de dizer que desejaria a cabana ou caverna onde estivesse livre da monotonia de tudo, que é a de mim, ousaria eu partir para essa cabana ou caverna, sabendo, por conhecimento, que, pois que a monotonia é de mim, a haveria sempre de ter comigo?
Eu mesmo, que sufoco onde estou e porque estou, onde respiraria melhor, se a doença é dos meus pulmões e não das coisas que me cercam?
Eu mesmo, que anseio alto pelo sol puro e os campos livres, pelo mar visível e o horizonte inteiro, quem me diz que não estranharia a cama, ou a comida, ou não ter que descer os oito lanços de escada até à rua, ou não entrar na tabacaria da esquina, ou não trocar os bons-dias com o barbeiro ocioso?
Tudo que nos cerca se torna parte de nós, se nos infiltra na sensação da carne e da vida, e, (...) nos liga subtilmente ao que está perto, enleando-nos num leito leve de morte lenta, onde baloiçamos ao vento.
Tudo é nós, e nós somos tudo -, mas de que serve isto, se tudo é nada?
Um raio de sol, uma nuvem que a sombra súbita diz que passa, uma brisa que se ergue, o silêncio que se segue quando ela cessa, um rosto ou outro, algumas vozes, o riso casual entre elas que falam, e depois a noite onde emergem sem sentido os hieróglifos quebrados das estrelas.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

15 comentários:

Frioleiras disse...

estranho como,
há coisas da monotonia q adoro...
os rituais...
adoro rituais... talvez se encarasses algumas das tuas monotonias como rituais ...
visses que o céu é mais cor de rosa do que azul...

Su disse...

frioleiras....eu gosta monotonia q de falas....dos rituais..de hábitos.....dos meus.... mas não desta que pesa----------q ata....

jocas maradas menina

António Almeida disse...

a monotonia mata!

António disse...

Minha querida Su!
Para transcreveres este magnífico texto é porque HOJE te sentes identificada com ele.
Espero que seja só hoje e que amanhã e depois já estejas de novo mais satisfeita com o teu mundo.
Mas se não for assim, foge!
Foge por uns tempos!
Muda as coisas nem que seja por uns dias e não te deixes cair na melancolia dos rituais diários que trazem a monotonia.

Então andaste a navegar no "Eu sou louco!"?
Minha querida: assim é que ficas mesmo marada...eh eh.
Obrigado pela visita.
Juro-te que é um prazer saber que me visitaste.

Beijos meus, Su

Bartolomeu disse...

"mas de que serve isto, se tudo é nada?"
:)
...
De que serve isto?...
preocupamo-nos tanto em conhecer para que servem as coisas, os pensamentos, as pessoas...as...os... que nos rodeiam e que preenchem a nossa vida, as nossas vidas e os nossos dia-a-dia.
Por outro lado, não é tão facil questionarmo-nos... para que servimos nós? Para que serve a nossa vida? Para que serve tudo aquilo em que nos empenhamos e que fazemos?
Depois concluímos, aquilo que os nossos ancestrais concluíram... nós compomos o universo, o universo compõe o cosmus e ele tem uma dinâmica e dessa dinâmica fazemos parte. Em resumo, abrimos encerramos e completamos a dinâmica do universo. Os Indu, chamam a esta dinâmica, a este rítmo, a dança de Shiva, que transmite o equilibrio universal.
Se te quisesse somente passar a mão pela cabeça, em jeito de afago, diria que... assim é e nada ha que nos permita alterar esse ritmo.
No entanto eu gosto de esticar um bocadinho mais a corda e cogitar a litle bit. E então desafio-te a reflectir... quando se toma consciÊncia de que somos assaltados por uma vontade imensa de mudar, de conhecer novos horizontes, novas ideias e modos de pensar, estaremos a ser "tocados" por uma consciência que nos seleccionou entre as outras que se acomodam naturalmente a um outro rítmo, sem sentir a necessidade de descobrir?

Rosa dos Ventos disse...

A ventania já anunciava borrasca, neste caso desassossego!
Como eu entendo este heterónimo de Fernando Pessoa e como te entendo pela escolha do texto!
Amanhã é outro dia...dizem!
Bjs

Daniel Aladiah disse...

Também é esse o meu desassossego...
Um beijo
Daniel

Lu@r disse...

Vontade de partir para bem longe onde nada é igual a nada.

Gostava de encontrar um lugar assim.

Beijo Doce

hfm disse...

Sempre ele como nosso reflexo.

as velas ardem ate ao fim disse...

a vida é uma escravatura para nós os desassossegados.

1 grande bjinhos para ti

Pirate disse...

Andamos todos desassosegados nos tempos que correm...
Navego, logo existo :-)

Moura ao Luar disse...

Desassossegada ando tantas vezes... sem me conseguir encontrar para pôr as ideias no lugar.

martim de gouveia e sousa disse...

como é fascinante este bernardo soares! bjo.

Cristina disse...

Su
Espero que hoje te sintas melhor!
Força
beijinhu

Su disse...

antonio almeida....mata....

antonio...meu lindo... tenho de figir então......e já sabes...gosto sempre de ler.te apesar de muitas vezes nem comentar---vero..jocass

bartolomeu....ena que filosofia...gostei dessa divagação... psstttt eu ainda estou a refectir..............acredita......

a rosa dos ventos...pois era amiga, a ventania....já se tinha anunciado...............jinho

daniel...ambos no desassossego.bjo

luar.....esse lugar existe? eu tb quero:))) jinho

hfm.....o nosso reflexo...sim....

as velas ardem até ao fim....é sim menina....inclusive sofremos por antecipação...tanta vez.... tantas vezes este mal estar........beijo

pirate....penso..logo exausto:)))

moura ao luar....acreditas que nunca tenho as ideias todas nos devidos lugares....navego...:)

martim...tb me fascina........joca

cris....obgda menina....sou como as marés----às vezes altas, outras baixas.....jinhosss



jocas maradas ..per tutti........