alguém...
quarta-feira, outubro 18, 2006
segunda-feira, outubro 16, 2006
sábado, outubro 14, 2006
intruso
foto de Mara Mitchell
Trecho 429, Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Trecho 429, Livro do Desassossego, Bernardo SoaresEm todos os lugares da vida, em todas as situações e convivências, eu fui sempre, para todos, um intruso.
Pelo menos, fui sempre um estranho. No meio de parentes, como no de conhecidos, fui sempre sentido como alguém de fora.
Não digo que o fui, uma só vez sequer, de casa pensado. Mas fui-o sempre por uma atitude espontânia da média dos temperamentos alheios.
Fui sempre, em toda a parte e por todos, tratado com simpatia.
A pouquíssimos, creio, terá tão pouca gente erguido a voz, ou franzido a testa ou falado alto ou de terça. Mas a simpatia, com que sempre me trataram, foi sempre isenta de afeição.
Para os mais naturalmente íntimos fui sempre um hóspede, que, por ser hóspede, é bem tratado, mas sempre com a atenção devida ao estranho e a falta de afeição merecida pelo instruso.
Não duvido que tudo isto, da atitude dos outros, derive principalmente de qualquer obscura causa intrínseca do meu próprio temperamento.
Sou por ventura de uma frieza comunicativa, que involuntáriamente obriga os outros a reflectirem o meu modo de pouco sentir.
Travo, por índole, rapidamente conhecimentos.
Tardam-me pouco as simpatias dos outros. Mas as afeições nunca chegam. Dedicações nunca as conheci. Amarem, foi coisa que sempre me pareceu impossível, como um estranho tratar-me por tu.
Não sei se sofra com isto, se o aceite como um destino indiferente, em que não há nem que sofrer nem que aceitar.
Desejei sempre agradar.
Doeu-me sempre que me fossem indiferentes.
Órfão da Fortuna, tenho, como todos os orfãos, a necessidade de ser o objecto de afeição de alguém. Passei sempre fome da realização dessa necessidade.
Tanto me adaptei a essa fome inevitável que, por vezes, nem sei se sinto a necessidade de comer.Com isto ou sem isto a vida dói-me.
Os outros têm quem sempre se lhes dedique.
Eu nunca tive quem sequer pensasse em se me dedicar.
Servem os outros: a mim tratam-me bem.
Reconheço em mim a capacidade de provocar respeito, mas não afeição. Infelizmente não tenho feito nada com que justifique a si próprio esse respeito começando quem o sinta; de modo que nunca chegam a respeitar-me deveras.
Julgo às vezes que gozo sofrer. Mas na verdade eu preferiria outra coisa.
Não tenho qualidades de Chefe, nem de sequaz. Nem sequer as tenho de satisfeito, que são as que valem quando essas outras faltem.
Outros, menos inteligentes que eu, são mais fortes.
Talham melhor a sia vida entre gente; administram mais habilmente a sua inteligência. Tenho todas as qualidades para influir, menos a arte de o fazer, ou a vontade, mesmo, de o desejar.
Se um dia amasse, não seria amado.
Basta eu querer uma coisa para ela morrer.
O meu destino, porém, não tem a força de ser mortal para qualquer coisa.
Tem a fraqueza de ser mortal nas coisas para mim.
sexta-feira, outubro 13, 2006
quarta-feira, outubro 11, 2006
CONFIDENCIAL
cristye
Não me perguntes,
porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.
MIGUEL TORGA (1907 - 1995)
Não me perguntes,porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.
MIGUEL TORGA (1907 - 1995)
sem
domingo, outubro 08, 2006
sexta-feira, outubro 06, 2006
Ausência
fotos de kerim marangoz
Quero-te dizer uma coisa simples: a tua ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma, mas que não deixa, por isso, de deixar sinais... um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos. Como se as tuas mãos lhe tivessem roubado o tacto. São as estas as formas do amor. Podia dizer-te, e talvez acrescentar que as coisas simples também podem ser complicadas, quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade. Porém, é o sonho que me traz a tua memória, e a realidade aproxima-me de ti, agora que os dias correm mais depressa, e as palavras ficam presas num refracção de instantes, quando a tua voz me chama de dentro de mim e me faz responder-te uma coisa simples, como dizer que a tua ausência me dói.”
Nuno Júdice
quinta-feira, outubro 05, 2006
terça-feira, outubro 03, 2006
Estou hoje lúcido . . .
foto Pedro Gomes

...
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
...
a.campos.

...
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
...
a.campos.
domingo, outubro 01, 2006
quinta-feira, setembro 28, 2006
existe
foto de Jochen van Eden
Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois factos existe um facto, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.
Clarice Lispector
Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois factos existe um facto, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.Clarice Lispector
quarta-feira, setembro 27, 2006
aqueles
aqueles que têm nome e nos telefonam, um dia emagrecem - partem- deixam-nos dobrados ao abandono no interior duma dor inútil, muda e voraz. arquivamos o amor no abismo do tempo e para lá da pele negra do desgosto, pressentimos vivo o passageiro ardente das areias - o viajante que irradia um cheiro a violetas nocturnas. acendemos então uma labareda nos dedos, acordamos trémulos confusos - a mão queimada junto ao coração. e mais nada se move na centrifugação dos segundos - tudo nos falta. nem a vida, nem o que dela resta, nos consola a ausência fulgura na aurora das manhã, se com o rosto ainda sujo de sono ouvimos o rumor do corpo a encher-se de mágoa. assim guardamos as nuvens breves, os gestos, os invernos, o repouso, a sonolência, o vento, arrastando para longe as imagens difusas, daqueles que amámos e não voltaram a telefonar.terça-feira, setembro 26, 2006
É contra mim que luto
foto markus arns

É contra mim que luto
Não tenho outro inimigo.
O que penso
O que sinto
O que digo
E o que faço
É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço
Absurda aliança
De criança
E de adulto.
O que sou é um insulto
Ao que não sou
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou
Infeliz com loucura e sem loucura,
Peço à vida outra vida, outra aventura,
Outro incerto destino.
Não me dou por vencido
Nem convencido
E agrido em mim o homem e o menino.
miguel torga

É contra mim que luto
Não tenho outro inimigo.
O que penso
O que sinto
O que digo
E o que faço
É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço
Absurda aliança
De criança
E de adulto.
O que sou é um insulto
Ao que não sou
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou
Infeliz com loucura e sem loucura,
Peço à vida outra vida, outra aventura,
Outro incerto destino.
Não me dou por vencido
Nem convencido
E agrido em mim o homem e o menino.
miguel torga
segunda-feira, setembro 25, 2006
domingo, setembro 24, 2006
aprender

"Crescemos imaginando que é possível aprender sem errar. No amor, por maioria de exigência. O que transforma, muitas vezes, o coração numa folha de cálculo. Ora, do mesmo modo que dar à luz não é tirar todas as dúvidas (mas pôr problemas), errar é aprender. E descobrir que, olhando por quem se olha, o importante nunca é saber como se faz, mas com quem se conta para chegar ao que se quer. "
Sá , Eduardo
Não entendo
by x mayaNão entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
Clarice Lispector
sábado, setembro 23, 2006
olhar
sexta-feira, setembro 22, 2006
quinta-feira, setembro 21, 2006
corrida
quarta-feira, setembro 20, 2006
domingo, setembro 17, 2006
sábado, setembro 16, 2006
The Mass
The Mass - Carmina Burana, Banda Era
agoro já sei ...agora já sei meter musica assim....lindo
agoro já sei ...agora já sei meter musica assim....lindo
nunca ninguém teve paciencia para me explicar...é facil, não custa nada mas este blog, não é , eu sei, o xpto, é só xanax....but....há gente com o coração do tamanho do mar...existe...eu que já nem acreditava. ...
ai se não fosse o m.eu prof...mil beijos de m.ar
ai se não fosse o m.eu prof...mil beijos de m.ar
wind...tinhas razão...uma mão mesmo virtual , no sentido de não presente, faz maravilhas
agora isto vai ser um "must"
minha força....
FAZES-ME FALTA

…Arrumei os amores, é a primeira regra da vida – saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los. Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição – como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações. Não há explicações para o desaparecimento do desejo, última e única lição do mais extraordinário amor. Mas quando o amor nasce protegido da erosão do corpo, apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris dessa animada esperança a que chamamos alma – porque se esfuma? Como é que, de um dia para o outro, a tua voz deixou de me procurar, e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?...
Inês Pedrosa-"FAZES-ME FALTA"
quarta-feira, setembro 13, 2006
terça-feira, setembro 12, 2006
sede
segunda-feira, setembro 11, 2006
sábado, setembro 09, 2006
a.mar
sexta-feira, setembro 08, 2006
AFINIDADE
Pode existir a quilómetros de distância, mas é adivinhado na maneira de falar, de escrever, de andar, de respirar.....
Artur da Távola
quinta-feira, setembro 07, 2006
sal
quarta-feira, setembro 06, 2006
domingo, setembro 03, 2006
sábado, setembro 02, 2006
Por quê?
sexta-feira, setembro 01, 2006
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